Em forma!

Por Vinicius de Oliveira

Definitivamente o Colégio Militar de Volta Redonda vai entrar para a história. Já famoso por ser o primeiro desse tipo em todo o Rio de Janeiro, a unidade passou a representar, ao mesmo tempo, expectativas e receios da população. O desmaio de, pelo menos, três alunos de 15 anos no dia da inauguração, que aconteceu na segunda, 3, chamou a atenção para a rigidez dos métodos disciplinares adotados pelo Corpo de Bombeiros, que administra o local. Desacostumados com a rotina endurecida dos quartéis, os 60 alunos da unidade foram obrigados a ficar de pé, enfileirados, por horas a fio. Tudo para agradar à estrela do evento: o governador Wilson Witzel, que chegou com 20 minutos de atraso – bem pouco, considerado por sua assessoria, mas o suficiente para ver os alunos tombando, inconscientes, à sua frente. 
Os meninos passam bem. Segundo os médicos, tiveram apenas uma simples indisposição e fraqueza. Mas, para o governador, os desmaios dos alunos foram dignos de admiração e respeito ao invés de preocupação. “Vocês que caíram foram muito corajosos por suportarem até não aguentarem mais. Eu também já caí. E vocês vão se levantar. Nunca desistam na vida, que vocês serão o que quiserem ser. Você foi corajoso por ter ficado em pé até onde aguentou”, discursou o governador com eloquência.  
As pompas convenceram os jovens que passaram mal. Numa sala reservada com Witzel, os três se emocionaram. Alguns foram às lágrimas após ouvir os elogios do governador. E tão satis-feito quanto os estudantes estava o presidente da Associação de Moradores do Açude, Alan Cunha, que só faltou gritar de alegria durante a inauguração. Para o líder comunitário, a implementação do colégio militar “foi a salvação do Ciep 403, que, por pouco, não foi fechado pelo governo Estadual” por falta de alunos. 
De fato, a chegada dos bombeiros salvou o prédio. Mas não aliviou a vida dos antigos alunos: moradores do Açude que tiveram de buscar escolas mais longe de suas casas para continuar estudando. Foi o caso de Jaqueline de Oliveira, que se viu obrigada a procurar a escola mais próxima, o Glória Roussin. “Antes eu ia pra escola a pé. Agora, preciso pegar ônibus se quiser estudar. Fica tudo mais longe, mais perigoso e até mais caro pra gente”, lamenta. 
Mantido pelo município, o Glória Roussin, ao contrário do que acontecia com o Ciep 403, sofre com a superlotação e a prefeitura precisa fazer malabarismos para dar conta de tanta gente. E mesmo tendo de lidar com seus próprios desafios na área da educação – professores insatisfeitos, Justiça cobrando o Plano de Carreira, entre outras –, o município encontrou meios para fazer do colégio militar uma realidade. “Não fosse a parceria entre a prefeitura de Volta Redonda e o governo (sem um tostão para manter a escola aberta), nem Ciep, nem colégio militar estariam funcio-nando. Com o Estado praticamente falido, o colégio militar é uma tacada incrível para o governador. Professores serão pagos por um fundo próprio dos Bombeiros e partes importantes para o funcionamento da estrutura foram cedidas pela prefeitura”, detalha uma fonte do meio educacional.  
O próprio  Samuca confirma o fato. Na inauguração do colégio militar, o prefeito de Volta Redonda disse em entrevista a um programa de rádio que, por pouco, o projeto não sairia do papel. “O fato em si do colégio militar é uma boa ideia, uma proposta bacana. Encontramos uma maneira do Ciep ficar aberto. No começo, eram 40 alunos. A prefeitura reformou o Ciep, que ficou belíssimo. Estamos atuando não só com a merenda, mas também na questão opera-cional, das pessoas trabalhando”, afirmou Samuca. 
Isso não é tudo. Na iminência do colégio fracassar antes mesmo de começar, por falta de alunos, o governo municipal teve de ajudar na divulgação, pois quase ninguém teria comparecido no primeiro dia de matrícula. A escola teve que iniciar o ano letivo com 40 alunos. Mas tanto esforço ainda não surtiu efeito totalmente positivo. Semanas depois de abrir os portões do prédio para os militares, pátio e salas do antigo Ciep 403 continuam praticamente vazios. 
Atualmente, apenas 60 famílias foram se-duzidas pela promessa de educação com mãos de ferro. A maioria delas já tem alguma ligação com o militarismo. Pais ou mães são da PM, dos Bombeiros ou da Guarda Municipal. 

Militarização é a solução?

Já estabelecidos em 120 municípios brasileiros, os colégios militares são vendidos à população como se fossem uma panaceia capaz de curar todos os males. A chamada “militarização” das escolas aparece como uma resposta à crescente violência no ambiente estudantil, seja contra professores, servidores ou entre os próprios alunos, além de relatos de tráfico de drogas. Experiências em Goiás e Sergipe são defendidas como exemplos do sucesso de tal processo: disciplina, respeito, fim da violência e do tráfico, melhora no desempenho escolar. 
Em Goiás, das dez escolas estaduais mais bem colocadas no Enem de 2017, seis eram militares. Em Anápolis, também no território goiano, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás Dr. Cezar Toledo saltou de 4,7 para 7,5 em dez anos. Pesquisadores, no entanto, têm questionado pontos não levados em conta por trás dessa rotina de um ambiente onde os alunos são obrigados a bater continência, ter um linguajar controlado, uniformes engomados e cortes de cabelo ‘na régua’, milimetricamente aparados. 
Para a diretora de Assuntos Educacionais do Sindicato dos Profissionais de Educação de Volta Redonda (Sepe – VR), Juliana Pereira de Carvalho, quando o Estado passa para as mãos dos militares, a Educação está ferindo a Constituição. “Ao negar sua presença na Educação, o estado fere a constituição e a universalização da Educação, ou seja, a possibilidade de uma escola pública e diversa que atenda a todos e todas é corrompida. O bairro Açude conta com uma população de aproximadamente 15 mil pessoas e possui grande demanda de estudantes e pessoas que desejam retomar os estudos. Todos sonham com uma educação de qualidade dentro da comunidade, uma vez que a escola mais próxima, de Ensino Médio, se encontra em outro bairro e é superlotada. Então, a solução proposta pelo nosso governador: Vamos militarizar! Mas será que essa proposta vai beneficiar os moradores do Açude?”, questiona a professora. 
Na visão da sindicalista, os altos índices apresentados pelos colégios militares goianos não podem servir de base para o Brasil inteiro, pois boa parte dos alunos que ocupam essas vagas são oriundos, justamente, de famílias de militares. O que significa, na maior parte das vezes, melhores condições de vida, fato que facilita o aprendizado. Em suma, o esquema, explica Juliana, gera exclusão da população mais carente. “Já podemos observar experiências nos estados de Goiás e Sergipe, onde as escolas militares reservam 50% das vagas oferecidas aos filhos de militares, caracterizando-se dessa forma um problema”. 
Tem mais. “A professora Virginia Maria Pereira de Melo, coordenadora do FEE-Goiás, diz que quando as escolas militares aparecem como verdadeiras ‘ilhas de excelência’, cobrando taxa de matrícula e mensalidades, mesmo sob a forma de contribuições voluntárias, fazem reserva de vagas para filhos de militares, não são questionadas pelas famílias e nem pelas autoridades por fazerem cumprir suas normativas disciplinares, está estabelecida a diferença, a exclusão”, argumentou. 
Para Juliana, os jovens voltarredondenses precisam não da rigidez dos militares, mas, sim, de oportunidades e de conteúdos que tenham a ver com suas próprias necessidades.  “Nós do Sepe/VR acreditamos que somente uma política pública séria e construída em conjunto com a sociedade pode mudar esse quadro. Enquanto o governo do Estado não começar a levar em consideração as especificidades locais e ouvir de fato as reais necessidades da educação, o fechamento das escolas prosseguirá. Em todas as vezes em que o ensino Médio Integral Profissionalizante é implementado não se consulta a escola. É inaceitável que sejamos escolhidos da noite para o dia de forma autoritária com um material  didático pronto, sem a devida construção coletiva; isso de fato fere os princípios da Lei de Diretrizes e Bases da Educação pois fere a autonomia pedagógica e o pluralismo de ideias diante das inúmeras realidades que atendemos”, finalizou a professora de História. 

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