Desgarrados

Mais de 30% dos alunos ainda estão fora da plataform

Vinícius de Oliveira

Esta semana, pela primeira vez desde o início do governo Neto, a secretaria de Educação disponibilizou, a pedido do aQui, um balanço sobre o acesso dos alunos da rede pública à nova plataforma utilizada para o ensino remoto: o Google Classroom. Segundo Terezinha Gonçalves, titular da pasta, dos quase 40 mil alunos matriculados, 67% tiveram algum tipo de contato com as atividades através da internet. Contudo, embora a maioria esteja se adaptando à nova realidade imposta pela pandemia, o número ainda está longe do ideal e uma multidão de crianças e adolescentes continua sem qualquer contato com os professores. De acordo com o levantamento apontado pela SME, 33% dos alunos buscam os deveres apenas na escola.
Assim que Tetê assumiu a pasta da Educação, uma das primeiras medidas foi encerrar o uso da plataforma ConectEdu, lançado pelo ex-prefeito Samuca Silva, às pressas, para garantir o ano letivo de 2020, bem como a segurança de professores e alunos, mas com qualidade totalmente duvidosa (o que foi admitido pelo próprio Samuca em suas redes sociais, grifo nosso). Entre os principais problemas apontados pelos usuários, estavam o constante travamento da plataforma e a dificuldade do professor de manter uma relação estável de comunicação com seus alunos. A ideia da SME com a adoção do Google Classroom era garantir que tais falhas não se repetissem.
De fato, as reclamações cessaram, pelo menos é o que garantem os integrantes do Grupo de Mídia da SME, uma equipe criada na atual gestão especificamente para tratar das questões tecnológicas que envolvem o ensino remoto. Mas, ainda assim, uma parcela considerável dos estudantes está fora do sistema. E isso não é tudo. Segundo alguns diretores, que preferem não se identificar, mesmo os alunos que conseguem acessar as atividades pela internet não interagem com o professor ao vivo. “Esse deveria ser o ponto alto do ensino remoto: a interação entre professor e aluno. Infelizmente, isso não tem acontecido como deveria. De todos os alunos de uma turma que registram presença pela plataforma, a média de acesso às aulas ao vivo é muito baixa. Em torno de 2 a 5 alunos por aula. Às vezes, o professor se encontra com um único aluno”, comentou uma diretora de uma escola de bairro periférico.
Outra diretora, de uma escola central, diz ter um pouco mais de sorte, mas, ainda assim, os números de interação são muito aquém do que considera ideal. “Nossas turmas têm, em média, 30 alunos. Muitos deles estão cadastrados, mas poucos acompanham efetivamente as aulas ao vivo. Nosso pico de participação gira em torno de 10 a 11 alunos. Temos certeza que, nesse ritmo, o impacto na Educação do município será muito grande. É importante que os pais se conscientizem disso”, desabafou.
Se a plataforma é gratuita e de fácil acesso, ou seja, tudo o que a anterior não era, por que tantos alunos continuam excluídos do processo? É justamente essa pergunta que Terezinha pretende descobrir como responder. “Solicitamos aos diretores que façam esse levantamento, através do número de matrículas na unidade educacional, para identificarmos quantos alunos, quais e o motivo de não estarem participando. Estamos fazendo reunião on-line com todos os diretores para que essas orientações sejam passadas para todos. As matrículas na rede municipal se encerrarão no dia 31 de março no Portal VR”, avisou Tetê.
A secretária afirmou ainda que o departamento pedagógico da SME tem buscado manter formação para os professores que, em muitos casos, ainda não conseguiram compreender os novos mecanismos que envolvem um ensino híbrido, que mescla tecnologia, homes-chooling (quando o ensino se dá em casa, com auxílio de um familiar) e atividades oferecidas pela própria escola. “A secretaria de Educação conta com o departamento pedagógico que, com os seus implementadores, acompanha e orienta os professores no sentido de vencer as dificuldades do ensino remoto e conseguir estabelecer um vínculo maior com seus alunos. Acreditamos que se o professor desempenha a sua função como sempre fez nas aulas presenciais e o aluno participa das aulas remotas, o vínculo acontece, apesar de não estarem juntos fisicamente”, disse, salientando a existência do grupo de mídia. “Contamos ainda com uma equipe de mídia formada por professores e funcionários da nossa rede que fez o treinamento no início do ano para o uso do Google Classroom com todas as equipes diretivas, pedagógicas, professores e secretários escolares antes da plataforma ser implantada e continuam de plantão auxiliando os que ainda precisam de suporte. As duas equipes (pedagógica e de mídia) trabalham juntas implementando e acompanhando as ações das escolas”, pontuou.
Segundo pais que não usam a plataforma oferecida pela SME, os motivos básicos para não acompanharem as aulas ao vivo e outras atividades propostas no Google Classroom são a falta de tempo para acompanhar os filhos, internet instável e falta da ferramenta adequada. “Eu tenho apenas um celular. Ele não suporta tanto material, arquivo e vídeos para as minhas duas crianças. Então, para mim, é muito melhor pegar na escola”, contou Flávia Pimentel, do bairro Volta Grande, seguida por Carlos Eduardo de Oliveira, do bairro Caieiras. “Aqui em casa, a internet não é nada boa. Vive caindo. Então não consigo acompanhar as aulas ao vivo. Só posso pegar as atividades na escola”, afirmou.
Para além dos problemas técnicos, a ineficiência do atual sistema, principalmente quando o assunto é alfabetização, também afasta os pais da plata-forma, tendo – aqueles que podem pagar – que recorrer às aulas de reforço. “O meu caso é mais por causa de tempo. Eu estou pagando uma menina para dar reforço ao meu pequenininho, que nem está lendo mais. O problema é que, mesmo que tivesse tempo de entrar com ele na internet, não consigo ensinar. Então prefiro pegar as atividades na escola e levar para a professora particular”, contou Juliana Roque da Silva, que mora na Água Limpa.
Questionada da falta de acesso de muitas famílias à internet e ferramentas de tecnologia, Tetê afirmou que a prefeitura está em busca de parceria com empresas de telecomunicação para minimizar o problema. “Precisamos oferecer condições para que todos sejam atendidos dentro da plataforma que já mostrou credibilidade com relação ao acesso e facilidade de uso. O prefeito tem feito contato com várias operadoras de telefonia e temos feito orçamentos para aquisição de equipamentos necessários para a inclusão de todos os alunos na plataforma. Precisávamos concluir as matrículas para sabermos o quantitativo de alunos que teremos em 2021 por segmento e darmos continuidade as medidas administrativas”, prometeu.

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