“Dá ou não dá”

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“A CSN nunca teve um bom relacionamento com a prefeitura (de Volta Redonda) quanto agora. A nossa relação não é de submissão; é uma relação de respeito. Ela é a maior empregadora do município; é a empresa que mais paga impostos; e temos que respeitar a CSN pela empresa que ela é”. A colocação foi feita pelo prefeito Samuca Silva durante entrevista ao radialista Betinho Albertassi, da Rádio 88,7 FM. Ele foi além. “A CSN tem sua responsabilidade social e, principalmente, tem uma responsabilidade ambiental com a cidade”, completou, referindo-se aos problemas do pó preto e escória que voltaram a dominar a atenção de ambientalistas e políticos. “Há um aumento considerável nas questões ambientais de poluição”, pontuou.

 

Samuca está certo. Na noite de quinta, 12, por exemplo, vereadores, deputados, candidatos e religiosos – os mesmos de sempre – se reuniram na Câmara de Volta Redonda para discutir, em audiência pública, as questões ambientais da CSN na cidade do aço. Detalhe: muitos usaram como gancho a matéria do pó preto divulgada na edição passada do aQui.

 

Voltando ao relacio-namento com a CSN, Samuca disse na entrevista a Betinho Albertassi que ele não quer discutir a questão das terras que a siderúrgica recebeu quando do leilão de privatização. Muito pelo contrário. “Não vou entrar em questão de quem é a terra, isso é um processo judicial. O que eu quero é que a CSN apresente projetos para essas áreas (ociosas e abandonadas, grifo nosso)”, afirmou, aproveitando para lembrar que ele, como prefeito, seria o autor do projeto do IPTU Progressivo, detestado por empresários e latifundiários voltarredondenses ou não. “É aquele IPTU que onera quem tem área ociosa. Quem tem (terras ociosas) paga mais impostos. Fui eu que apresentei (o projeto) para estimular o desenvolvimento da cidade”, destacou, para disparar: “Então nossa relação é papo reto, dá ou não dá”, sentenciou.

Escritório Central

Na manhã de quarta, 11, antecipando sua viagem marcada para o dia seguinte, Samuca esteve na sede da CSN em São Paulo. Levava na bolsa de viagem um calhamaço de papéis. Uns sobre a ideia que lhe apresentaram de desapropriar, a preços que nem sempre são os de mercado, o prédio do Escritório Central, na Vila. Outros sobre a proposta que não abre mão de comprar o imóvel, a perder de vista (10 anos, pagando R$ 500 mil mensais). Curiosamente, procurado pelo aQui para falar da reunião, o prefeito fugiu da raia. Mas prometeu que nos próximos dias poderá chegar a um denominador comum com Steinbruch.  

 

Samuca, entretanto, não deixou de abordar a reunião que teria com a CSN no programa Fato Popular da 88,7. “Eu já apresentei três tipos de propostas (todas já divul-gadas pelo aQui). A primeira foi abater o valor do Escritório Central (R$ 80 milhões) das dívidas da prefeitura. A segunda foi de fazer uma gestão compartilhada da prefei-tura com a CSN. E a terceira e última foi a prefeitura comprar o escritório, mas efetuando o pagamento com o próprio aluguel que o prédio poderia gerar, com a carência de um tempo (um ano) para negociar com as empresas interessadas em ocupar salas ou andares do Escritório Central. O aluguel daria para efetuar a compra, sem entrar dinheiro público. Mas me parece que isso não está andando”, confessou, referindo-se à CSN. “Se não andar essa semana ou o mais tardar na semana que vem, vamos encerrar essa discussão sobre a compra ou não do Escritório Central”, ameaçou. “A vida anda e temos mais dois anos para tocar os projetos. Não posso ficar dependendo da CSN sobre qualquer aspecto para investir ou não, para abrir empresa ou não”, disse, meio que aborrecido.

 

A CSN, segundo Samuca, já entrou com oito projetos na prefeitura de Volta Redonda. Que devem estar ligados às terras ociosas ou a imóveis sem uso, abandonados até. “(CSN) Entrou com um projeto, uma consulta técnica. Na verdade são oito projetos para Volta Redonda, sendo que sete já estão bem adiantados na região da Vila”, anunciou, sem dizer a localização exata dos pontos que a siderúrgica quer explorar. Um deles, certamente, será o imóvel do Centro de Puericultura, onde a CSN sonha em construir um prédio comercial no centro do terreno para preservar a antiga sede da pediatria do Hospital Siderúrgica Nacional.

 

As terras do Aero Clube, que a CSN retomou judicialmente, também fazem parte das consultas técnicas que a empresa deu entrada no IPPU-VR. “A questão do Aero também está em análise. Me parece que até dezembro teremos alguma novidade”, disse Samuca, aproveitando para garantir que a ‘cobrança’ que faz não é um privilégio da CSN.  “Cobramos de qualquer empresa. A CSN detém mais de 40% das terras de Volta Redonda e queremos que ela apresente seus projetos para a nossa cidade”, insistiu. 

 

“Ele me recebe bem e eu o respeito como presidente da CSN. Temos uma belíssima relação e ele me ajudou no primeiro ano (de governo), com o pagamento do IPTU à vista”, avaliou Samuca, referindo-se a Benjamin Steinbruch, aproveitando até para defender o ‘amigo’. “Ele manteve a empregabilidade (na CSN), mesmo em crise. Não demitiu ninguém. A gente tem que reconhecer o que a CSN faz pela cidade e cobrar dela. Essas questões ambientais, (a CSN) tem sim suas responsabilidades. Mas só vamos conseguir algo é através do diálogo. Sou um articulador político e acho que eu estou sendo subavaliado nesse processo (ambiental). E já que temos uma boa articulação com o presidente da CSN, e como envolve o governo do Estado, eu acho que a prefeitura e o prefeito poderiam ser esse articulador. Podemos ajudar nessas negociações”, crê.

 

Em relação à escória depositada em área localizada dentro de Volta Redonda, Samuca garante que a secretaria do Meio Ambiente já notificou a CSN e a empresa Harsco para que apresentem as licenças de operação. “O que a prefeitura pode fazer é olhar e pedir, como a qualquer empresa licenciada, que apresentem as licenças ambientais para ver se está tudo em dia. Quem dá a licença não é a prefeitura nesse caso da CSN, é o governo do Estado. Fazemos o que está na competência da prefeitura fazer. Aquela montanha (de escória) está ali há um bom tempo. Temos que tomar cuidado com essa pauta ambiental para que ela não vire um palanque político, seja para A ou para B. Eu não estou atrás de palanque político, eu quero é cuidar das pessoas; pensar nas pessoas; e resolver os problemas de Volta Redonda”, mandando uma indireta aos adversários.

 

Para surpresa geral, Samuca contou a Betinho Albertassi que já apresentou até uma solução para o caso da escória. Passa por usar o produto como matéria prima para a construção de calçadas. “Eu dei a sugestão para a CSN apresentar um projeto social – e a prefeitura está à disposição – para resolver o caso dessas calçadas de Volta Redonda, onde o particular (o dono do imóvel) é o responsável pela calçada em frente à sua casa. Por que não pega a escória, mistura com cimento que faz calçadas? Precisamos de ideias, não precisamos é de oba-oba político”, disparou.

Grampos

Audiência (I) – Na quinta à noite, 12, a audiência pública realizada na Câmara para falar das questões ambientais envolvendo a CSN contou com a presença de muitos políticos. O engraçado é que ‘o povo’ mesmo não apareceu. Nem o Inea mandou representante.

 

Audiência (II) – A audiência foi pedida por uma Comissão Especial da Câmara, formada pelos vereadores Rodrigo Furtado, Edson Quinto e Jarí. Os deputados Julianelli e Lucinha, da Comissão Ambiental da Alerj, também estiveram presentes. O MPF foi representado pela procuradora, Marcela Biagioli e a CSN, pelo advogado Fernando Cardoso. A prefeitura mandou o engenheiro Márcio Lins, ex-diretor da UPV.  

 

Audiência (III) – Do encontro, ficou definido apenas que novos eventos serão realizados para discutir a poluição provocada pela CSN. E que os deputados e vereadores (pré-candidatos, claro) vão acompanhar o problema para cobrar soluções da CSN. E ter mais alguns minutos de fama…

 

Audiência (IV) – Na semana passada, a CSN emitiu nota sobre o pó preto e culpou a “ausência de chuvas” para o aumento da poeira industrial. A empresa também informou que “vem adotando medidas para minimizar a emissão e material particulado em seus processos produtivos e incômodos à comunidade”.

 

Escória – Veja só o que o MPF quer exigir da CSN e da Harsco Metals (empresa que opera o depósito de escória da CSN no Brasilândia): que banquem o tratamento de saúde dos moradores afetados pela montanha de escórias do bairro Brasilândia.

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