terça-feira, abril 16, 2024
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Com o lixo na mão

Com pouco a comemorar, mulheres catadoras pretas, maioria no país, demonstram o que significa o Dia Internacional da Mulher

Por Vinicius de Oliveira

Com dados oficiais de 26 estados e do Distrito Federal, o site g1, comparando 2022 com 2021, chegou à conclusão de que o Brasil, em um ano, registrou um aumento de 5% nos casos de feminicídio. Não é para menos: 1,4 mil mulheres foram assassinadas apenas por serem mulheres. Significa uma morte a cada seis horas, em média. Um recorde. Desde 2015, quando a lei que trata deste crime específico entrou em vigor, nunca se teve notícia de tantos assassinatos de mulheres. Já o Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) revela que no Brasil duas mulheres são estupradas a cada minuto. Ou seja, 822 mil mulheres por ano têm seu corpo vilipendiado de formas diversas e escabrosas.
No Brasil, onde o feminicídio alcança números escandalosos e os casos de estupros envergonham – ambos capazes de fazer qualquer indivíduo do gênero feminino tremer antes de sairdecasa–,o8de março não é uma data festiva. É política. E não deve ser comemorada, mas refletida.
A começar pelo fato de as mulheres continuarem sendo subalternizadas, ocupando lugares inferiores na cadeia produtiva. Mostra que as políticas públicas têm apresentado poucos efeitos na prática. Mesmo com campanhas massivas para que elas ocupem cargos de chefia nas grandes empresas públicas e privadas ou leis de cota que garantam maior representatividade no cenário político, as mulheres ainda são
minoria nos espaços de poder. Enquanto os grandes conglomerados econômicos e parlamentos estão abarrotados de homens, as mulheres ocupam majoritariamente serviços subalternos, menos remunerados e invisibilizados.
É o caso das catadoras, por exemplo. Estima-se que o Brasil tenha 800 mil pessoas trabalhando com resíduos sólidos e reciclagem. Destas, segundo dados do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), quase 70% são mulheres e, entre elas, as negras predominam. “No Brasil ainda são poucos os estudos que discutem as relações de gênero na catação. Mas dentre esses estudos, alguns chamam a atenção para o fato de a cadeia da reciclagem ser sexuada e de haver indícios de uma feminização e racialização na catação”, observou Isabella de Carvalho Vallin, mestre em Ciência Ambiental pela PUC e autora do artigo ‘Injustiça Ambiental e Gênero: Um Olhar Sobre as Mulheres Catadoras de Materiais Recicláveis’.
O que Isabella observou se reproduz no Sul Fluminense. A líder da cooperativa Pinheiral em Ação, Lidiane Maria da Costa Conceição, 53 anos, a Lídia, conta que em seu grupo de trabalho atuam oito pessoas. Apenas um homem. “São sete mães de família. Maioria, mães solteiras. Todas pretas. E são as principais responsáveis pelo sustento de suas famílias”, disse.
A professora Isabella explica em seu artigo que esse fenômeno se estabelece por ser um trabalho de baixa qualificação profissional e, por isso, acaba por atrair, principalmente, as mulheres negras desempregadas, com pouca escolaridade e chefes de família. “Para muitas das catadoras, o início do trabalho no setor representa a trajetória familiar, ou uma alternativa para lidar com os problemas de saúde, migração, velhice e abandono. Mesmo havendo diversas razões que direcionaram as mulheres a catar, um elemento em comum ato das é o de que encontraram na atividade uma forma relativamente segura e duradoura de obter renda e de conseguir conciliar as tarefas produtivas com as reprodutivas”.
E a história de Lídia corrobora os argumentos da estudiosa. Segundo ela, foi exatamente uma onda forte de desemprego, em 2016, que a levou para o trabalho de catação. O mesmo se deu com suas companheiras. “Houve um período longo de desemprego aqui em Pinheiral. Eu cheguei a trabalhar como doméstica e meu marido, na construção civil. Mas não durou e nem gerava uma renda certa. Até que comecei a trabalhar catando reciclados. Foi um começo muito difícil, e ainda é, mas agora temos uma renda mensal de um salário mínimo”, relembrou.
Na cooperativa de Pinheiral, as mulheres são responsáveis por tudo. São elas que recolhem os resíduos, fazem a triagem, pesam, prensam e vendem a mercadoria. “Juntamos, por semana, em torno de 3 toneladas de material reciclável.
Carregamos diariamente sacos gigantes que ficam batendo em nossa perna causando dor. Varizes são comuns em todas nós por conta do esforço constante de abaixar, levantar e carregar peso. E na hora de receber, os valores são iguais. A não ser o de uma moça que fica menos tempo na cooperativa”, relatou a líder das catadoras.
Para Isabella, a presença massiva de mulheres na catação é compulsória, pois até neste tipo de trabalho os homens têm privilégios e podem até escolher não ficar revirando o lixo por muito tempo. “Isso se dá pelo fato de os homens negros, de baixa escolaridade e pouca formação profissional, terem mais chances de ingressar no mercado formal do que as mulheres nas mesmas condições, ou, ainda porque, trabalhando informalmente, as condições trabalhistas dos homens são melhores, como no caso da construção civil. Assim, parece haver uma perspectiva mais ampla para os homens, que a princípio, não cogitam trabalhar com a catação, pois esperam conseguir alguma atividade melhor. A partir desse panorama, entende-se que a precarização feminina na catação está diretamente relacio- nada com a divisão sexual do trabalho”, defende.
Isabella observa que trabalhar na cooperativa muitas vezes é a melhor solução para que as mulheres possam dar
conta de sua dupla jornada de trabalhadora e mãe. “A necessidade de estar próxima à creche, à escola e a própria casa, para cuidado dos filhos e do lar, faz com que as mulheres busquem trabalhar em cooperativas de materiais recicláveis, uma vez que estas, muitas vezes, localizam-se no próprio território onde vivem as catadoras, como é o caso da cooperativa observada. Por essa razão, são mais flexíveis, permitindo que as cooperadas organizem seus horários com vistas a cuidarem das tarefas reprodutivas, permitindo o arranjo do trabalho produtivo com o reprodutivo”.
As cooperativas, além de gerar renda às famílias que compõem o grupo, estabelecem uma rede importante de proteção, muitas vezes a única, que garante a manutenção dos empregos dessas mulheres e a geração de renda. Foi o que aconteceu durante o surto sanitário de 2020, com a explosão do coronavírus e o caos social que se abateu sobre pessoas como as catadoras da cooperativa Pinheiral em ação. “Quando a pandemia estava no auge e as escolas ficaram fechadas, as mulheres não tinham com quem deixar as crianças e precisavam continuar trabalhando. Com muito esforço, montamos um espaço onde as crianças poderiam ficar. Logo esse espaço se tornou uma pequena creche que funciona até hoje. Os filhos das catadoras vêm de manhã para cá, fazem atividades e à tarde vão para a escola de banho tomado e com almoço”, contou.
Essa tonelada de esforços elas carregam praticamente sozinhas, nas costas, todos os dias. “Costumo dizer que trabalhamos com uma espada na mão. A gente trabalha e guerreia ao mesmo tempo. A prefeitura pagou ano passado e está pagando este ano a luz e a água da cooperativa, mas não sabemos com certeza quanto tempo isso vai durar. E a prefeitura não consome nossos produtos. Temos que fazer a venda por fora. Também é por nossa conta a manutenção do carro que conseguimos adquirir com o tempo. Quando ele estraga, é um desespero, pois sem ele não é possível recolher a quantidade de materiais que temos hoje”, desabafou Lidiane, comentando que elas passam por hospitais, escolas e casas e ainda precisam lidar não só com a concorrência de catadores individuais, mas principalmente dos lixeiros. “Eles passam seis horas da manhã, recolhem o lixo e separam para eles tirando o sustento de quem está desempregado. Por isso as parcerias são importantes, pois garantem para a gente destinos certos para recolher”.
E até mesmo no trabalho com o lixo o preconceito é uma realidade mais malcheirosa do que os resíduos coletados pelas catadoras. “Já ouvi dentro da prefeitura pessoas dizendo que não vamos muito longe porque faltam homens. Dizem que se houvesse homens, nós estaríamos em condições melhores. Claro que às vezes a força física deles ajuda, mas a nossa força está na mente, e é ela que controla todo o corpo”, disse, cheia de orgulho.

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