Coisas da política

PSL de Volta Redonda nega existência de candidaturas laranjas; candidata recebeu R$ 93 mil para gastar e não obteve nem 50 votos

Por Vinícius de Oliveira

Candidaturas laranjas no país não são novidade. Um caso recente, de repercussão nacional, foi revelado em Minas Gerais dentro do PSL, partido que ajudou a eleger Jair Bolsonaro presidente. Segundo denúncia do MP mineiro, o presidente da sigla, Luiz Álvaro Antônio, ministro do Turismo, teria fraudado as eleições ao montar uma nominata com mulheres que não tinham, na verdade, a intenção de se eleger vereadoras, mas que receberam ainda assim vultosas quantias de dinheiro e, na contrapartida, tiveram votação pífia. A história, que ficou conhecida como o escândalo das candidatas laranjas do PSL, deixou todo mundo de olho aberto, inclusive o aQui.

Em Volta Redonda uma situação parecida com a de Minas Gerais pode estar acontecendo e ninguém teria se atentado para a estratégia, justamente dentro do PSL, liderado pelo deputado federal Antônio Furtado. Basta dar uma rápida olhada no site Divulga-Cand, um portal desenvolvido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para garantir mais transparência ao processo eleitoral, que a discrepância salta logo aos olhos.

No partido do parlamentar do PSL, que não quis concorrer ao Palácio 17 de Julho, curiosamente, uma de suas ex-assessoras, Joana D’arc Silva Ramos, foi a candidata que mais recebeu verba do Fundo Partidário. Foi creditada na conta bancária da moça, que aparentemente tem seu reduto eleitoral no bairro Água Limpa, a impressionante quantia de R$ 93.500. Com tanto dinheiro, poderia fazer uma campanha digna para prefeito – Neto, do DEM, para ser eleito gastou R$ 107.541,50. Uma diferença de apenas R$ 14 mil. Mas os modestos vídeos divulgados por Joana nas redes sociais (quatro, grifo nosso) e uma carreata não foram suficientes para garantir nem 50 votos à candidata do PSL de Furtado.

Totalmente desconhecida na Água Limpa, Joana ficou entre os candidatos do PSL menos votados. “Isso é muito curios,o porque Antônio Furtado, a grande estrela do partido, andou ao lado dela. Era para ter bombado. Mas, mesmo assim, teve desempenho vergonhoso nas urnas. Será que Antônio Furtado perdeu força na região ou foi Joana que não teve mesmo a intenção de se eleger?”, indagou uma fonte do meio político que prefere não se identificar.

O aQui entrou em contato com Joana D’Arc. Ela achou melhor não dar entrevista, mas confirmou que foi assessora de Antônio Furtado em Brasília. E, antes de encerrar o assunto, explicou que o dinheiro alto que recebeu teve a ver com a cota para mulheres e negros, uma determinação do TSE para garantir isonomia entre candidatos independente do seu gênero e da cor da pele. “Eu fui a candidata que mais recebeu verba pela cota”, resumiu Joana, se despedindo.

Em uma coisa Joana tem razão: ela realmente foi a mulher mais beneficiada pelo fundo partidário. Mas teve gente que chegou perto. A segunda mais ‘aquinhoada’ foi Sheyla Cristina Corsino Batista. Recebeu R$ 92.500 do PSL, mas só teve nove votos no fim das contas. E, assim como para Joana, Furtado chegou a gravar um vídeo pedindo voto para Sheila. Detalhe: Margarida Cabeleireira, com apenas mil reais, fez mais votos (26) do que Sheila.

Enquanto Joana e Sheila ‘tiveram’ uma verba milionária para uma simples campanha de vereador que não rendeu frutos, outros não tiveram a mesma sorte. Foi o caso de Agnes Torres de Souza. Ela não recebeu nenhum tostão do PSL e, segundo o DivulgaCand, Agnes conquistou apenas 6 votos.

O mesmo aconteceu com Serginho do Comercial. Entrou e saiu da campanha de mãos abanando. Conforme registrado pelo TSE, o candidato do PSL em questão não recebeu absolutamente nada e foi ainda pior do que Agnes: teve 3 votos nas urnas. Ou seja, é bem provável que sequer seus familiares se importaram em votar nele.

Nem Furtadinho, outro ex-assessor do delegado que, de tão próximo usa como apelido o nome do patrão, recebeu tanto dinheiro quanto Joana e Sheila. Segundo o divulCand, ‘a cria’ de Antônio Furtado, que foi o mais votado do PSL, com 516 votos, recebeu do partido apenas R$ 21.400. então basta fazer as contas. Mesmo tendo acesso a apenas menos da terça parte do montante que Joana e Sheila tiveram direito, Furtadinho conseguiu nove vezes mais votos do que suas companheiras de partido.
Dentro do PSL voltarredondense há vários outros casos no mínimo curiosos e o partido ainda precisa explicar alguns, como o de Silvana Cabeleireira e Vanessa. Mesmo o diretório municipal tendo sido generoso com elas (doações de R$ 50 mil e R$ 52.045, respectivamente), as duas fracassaram nas urnas. Silvana obteve 52 votos e Vanessa, 141.

O aQui foi atrás de possíveis explicações. Em nota, o presidente do PSL, José Carlos, disse que o partido seguiu à risca a lei. “O Fundo Partidário é uma verba destinada à executiva nacional dos partidos e cabe a elas definir como esse dinheiro será distribuído nos estados e municípios. No PSL não é diferente. Existem legislações para a distribuição desse recurso e elas foram seguidas nas eleições municipais deste ano. Além de cotas para candidatas mulheres, também existe a cota para candidatos negros e pardos. Nossa intenção era eleger o maior número de mulheres possíveis por valorizarmos o empoderamento feminino. Entretanto, quem decide os vencedores do pleito são os eleitores. E, de modo geral, os homens ainda são mais escolhidos que as mulheres para exercer a representação política”, relativizou.
Ao ser perguntado sobre a possibilidade de as candidaturas mencionadas nessa reportagem serem laranjas, José Carlos negou. “Com toda certeza, sob a minha administração, afirmo que não existiu qualquer tipo de candidatura laranja. Em qualquer eleição, um candidato pode ganhar ou perder. Nosso objetivo era tornar o PSL ainda mais conhecido e começar o processo de fortalecimento de novos nomes na política, especialmente na cidade do aço. Considero que demos um passo significativo no âmbito municipal, para fortalecer o PSL e fortalecer também a Democracia”, disse.

Já Antônio Furtado, que se apresenta como o bastião da legalidade e da Justiça, jura que jamais descumprira a lei. “Como delegado de polícia, tenho um respeito muito grande pelo cumprimento da Lei. De maneira alguma compactuaria ou aceitaria o lançamento de candidaturas laranjas na cidade. É uma acusação muito grave de ser feita e que deve vir cercada de provas. Realizamos uma campanha limpa e demos oportunidades para os nossos candidatos a vereadores, sejam homens ou mulheres, mesmo que não fossem conhecidos, de participar dessa disputa da democracia”, garantiu.

 

Veja abaixo a íntegra da resposta enviada por Antônio Furtado

“Existem Leis que determinam como o dinheiro do Fundo Partidário deve ser utilizado. No PSL temos o cuidado de seguir todas as exigências legais e tratar todas as questões de maneira mais transparente possível. Além de cotas para candidatas mulheres, também existe a cota para candidatos negros e pardos. E todas precisam ser respeitadas. As executivas municipais do PSL, na nossa região, optaram por buscar novos nomes e permitir ao eleitor a possibilidade de uma renovação nas câmaras. Isso aconteceu em Barra Mansa, onde tivemos três candidatos eleitos que nunca tiveram mandato até então, e em Pinheiral com dois eleitos. Em Volta Redonda, entendemos que essa não era a vontade da população, que optou por manter nomes conhecidos na Câmara, e respeitamos essa decisão. Entendo que, mesmo sem vereadores do nosso partido em Volta Redonda, tivemos um resultado muito positivo. Foi a primeira experiência de muitos e acredito que, em uma eleição futura, voltarão mais bem preparado para a disputa.

Tanto o Fundo Eleitoral quanto o Partidário são verbas destinadas ao diretório nacional. São eles quem decidem, com base na Lei, como o dinheiro será empregado. Todo recurso que sobra de uma eleição é devolvido ao mesmo lugar que destinou. Não é uma gerencia pessoal. Cada eleição é um pleito diferente e para cada uma são destinadas recursos e verbas de maneira distintas. O dinheiro de uma não está atrelado ao dinheiro da outra. Não existe um caixa que acumula o que sobra da eleição municipal para usar em uma eleição federal. Em 2022 serão novos recursos e novas divisões para distribuição de valores para campanha.

Como delegado de polícia, tenho um respeito muito grande pelo cumprimento da Lei. De maneira alguma compactuaria ou aceitaria o lançamento de candidaturas laranjas na cidade. É uma acusação muito grave de ser feita e que deve vir cercada de provas. Realizamos uma campanha limpa e demos oportunidades para os nossos candidatos a vereadores, sejam homens ou mulheres, mesmo que não fossem conhecidos, de participar dessa disputa da democracia. Tenho certeza que estão saindo maiores que entraram. Esse é nosso objetivo, propiciar o crescimento daqueles que querem fazer uma política honesta, voltada para o bem comum.”

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