‘Coisa de doido’

Por Roberto Marinho

A grande imprensa carioca deu destaque e vários jornais do exterior noticiaram a morte de Serguei, uma lenda do roque brasileiro – ele também teria sido o precursor brasileiro do visual andrógino em shows – ocorrida no último dia 7 de junho. O que poucos divulgaram é que ele morreu, aos 85 anos, no Hospital Regional do Médio Paraíba Dra Zilda Arns, localizado em Volta Redonda. Nem se preocuparam em revelar que o cantor, que enfrentava problemas sérios de saúde, enfrentou 211 quilômetros de viagem, depois de ter ficado 22 dias internado no Hospital Estadual dos Lagos Nossa Senhora de Nazareth, de Saquarema, onde o ‘Divino do Rock’ morava e mantinha uma “casa-museu”, para ser transferido para a cidade do aço.
Mas por que submeter um idoso doente – apesar da tremenda jovialidade do espírito de Serguei – a uma longa viagem de três horas ou mais, para interná-lo em outro hospital, inaugurado em 29 de março de 2018, sem qualquer expertise? E por qual motivo ele, morador da Região dos Lagos, que deve ter um bom hospital estadual, foi mandado para Volta Redonda, para ocupar, certamente, uma vaga destinada a um morador de uma das 12 cidades do Médio Paraíba?
Nada contra Serguei, que com seu espírito irreverente conquistou fãs de todas as idades. Muito pelo contrário. O famoso roqueiro, como qualquer cidadão, deveria ter tido é um tratamento condizente com seu estado de saúde, em um local com recursos técnicos para que pudesse sair vivo do hospital. Não foi o que aconteceu. Saiu de lá em um caixão de volta a Saquarema.
Pena que o caso de Serguei não é o único. Muito pelo contrário. De acordo com informações da coordenação do Cismepa (Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paraíba), nada menos que 75% dos pacientes atendidos no Hospital Regional são de cidades localizadas fora do Sul Fluminense. Mais que isso: por uma série de fatores – entre eles, a falta de um centro cirúrgico em funcionamento -, a taxa de mortalidade da unidade chega a impressionantes 53%. Ou seja, mais da metade dos pacientes que entra no Hospital Regional, como Serguei, só sai morto.
Sérgio Bustamante – o nome de batismo de Serguei – aumentou a famigerada estatística. Tudo porque na Região dos Lagos não havia vaga de UTI em nenhum dos hospitais estaduais. Foi transferido para uma unidade, a que foi criada pelo governo Pezão para atender os cerca de um milhão de moradores do Sul Fluminense e que até hoje nem recursos tem para atender bem aos seus pacientes, seja ele Serguei ou não.
A situação, é claro, gera muito desconforto aos prefeitos da região, que foram obrigados a engolir, lá atrás, o projeto de construção do Hospital Regional, que seria a saída para a falta de serviços de Saúde especia-lizados na região do Médio Paraíba, principalmente em leitos de UTI. “O hospital é regulado pelo governo do Estado. Esta crítica eu faço, pois não tenho nenhuma gestão lá. Eu abri (inaugurei), mas não o uso em sua plenitude. Já contribuímos com dinheiro para abrir, hoje não contribuímos mais”, pontuou Samuca Silva, prefeito de Volta Redonda, ao ser abordado pelo aQui para falar sobre o HR.
Segundo Samuca, das 30 vagas em leitos de UTI existentes na unidade, somente oito estariam sendo ocupadas por pacientes de Volta Redonda. O que o leva a garantir que a unidade perdeu o sentido de ser regional. “Agora entramos na fila, virou um hospital estadual. Abriu para ser regional, mas não foi o que aconteceu”, desabafou, afirmando que a regulação começou a ser feita já no governo passado, com Pezão. E teria continuado com o governo Witzel.

Hospital Estadual
O coordenador técnico do Cismepa (Consórcio Intermunicipal do Médio Paraíba), Rodrigo Lages, confirma que o Hospital Regional foi mesmo concebido para ter um perfil regional, tanto é que foi idealizado por técnicos das prefeituras de todo o Médio Paraíba: Volta Redonda, Resende, Rio Claro, Rio das Flores, Barra Mansa, Barra do Piraí, Quatis, Itatiaia, Piraí, Pinheiral, Porto Real e Valença. “O Hospital Regional foi idealizado pelos municípios da região, através do Cismepa. Todo o planejamento prévio foi feito no âmbito do Médio Paraíba. Obviamente, o Estado, através do convênio 004/2010, e com a alocação de recursos para a obra, também participou desse projeto. Mas o desenho do perfil assistencial foi todo elaborado por técnicos da região do Médio Paraíba – secretários de Saúde, coordenação do consórcio, prefeitos”, detalhou Lages, lembrando que a regulação está sendo feita pelo Estado, tanto para os leitos de UTI e leitos clínicos de retaguarda para UTI, quanto para os exames de imagem, únicos setores em funcionamento na unidade atualmente.
“A regulação é feita pela Superintendência de Regulação, da secretaria Estadual de Saúde, através do Sistema Estadual de Regulação (SER) -, que regula as vagas em vários hospitais do estado, em algumas especialidades. Como a maior parte do funcionamento do Hospital Regional hoje é de leitos de UTI, toda essa regulação quem faz é a secretaria de Estado, por meio desse sistema”, explicou Lages, completando: “Para os exames de imagem feitos no Centro de Imagem do hospital, a regulação é feita por um sistema diferente, mas é gerido também pela secretaria de Estado, que se chama Clínicos. Mas são sistemas independentes”, frisa.
Lages explicou que o HR teve que nascer como “hospital estadual” porque não havia maneira jurídica para que o mesmo recebesse verbas públicas, a não ser que fosse transformado em um hospital municipal, vinculado à prefeitura de Volta Redonda. “O hospital regional seria municipal, de Volta Redonda, ou estadual, porque não existe unidade federada (mantida pelo Ministério da Saúde, grifo nosso) na região. Então ficou estabelecido que ele (HR) nasceria como uma unidade de gestão estadual. Foi o que aconteceu, conforme deliberação da Comissão Intergestora Bipartide (CIB), órgão formado por representantes da secretaria de estado de Saúde e ainda do Conselho Estadual de secretários municipais de Saúde – Cosems”, detalhou, afirmando que, ao mesmo tempo, o Cismepa, representando os municípios, tentaria a aprovação de uma lei para que permitisse ao governo do Estado, por meio da secretaria estadual de Saúde, se tornar integrante do Cismepa para poder financiar diretamente a nova unidade hospitalar.
“Com essa proposta, a Alerj autorizaria o Estado a participar do consórcio público de Saúde. Mas essa lei está até hoje parada. O Cismepa passaria para 13 entes consorciados – os 12 municípios mais o governo do Estado. Só que isso não aconteceu”, desabafou.

‘Goela abaixo’
Lages lembra que, ainda na gestão do ex-governador Pezão, o então secretário de Saúde, Luiz Antônio Teixeira Junior, se reuniu com os prefeitos da região e prometeu que faria uma “gestão compartilhada”. Pura lorota. Segundo Lages, ele e os integrantes da coordenação executiva do Cismepa, formada pelo presidente do consórcio, o prefeito de Pinheiral, Ednardo Barbosa, e a secretária executiva Maria Conceição (que é secretária de saúde de Piraí), receberam com “surpresa” o pregão feito pela pasta estadual de Saúde, no dia 21 de dezembro de 2017, que terminou com a contratação da OS (Organização Social) Instituto Marrie Pierre, oriunda de Mutuípe, pequena cidade da Bahia.
“Nenhum integrante do Cismepa foi consultado sobre isso (concorrência da OS), e sobre os primeiros serviços que seriam oferecidos no Hospital Regional de Volta Redonda. Isso causou bastante estranheza entre os prefeitos, secretários de saúde e a executiva do Consórcio, já que a todo momento as falas (dos envolvidos, grifo nosso) eram contrárias a isso (gestão pelo estado, por meio de uma OS, grifo nosso)”. Ou seja, a OS foi enfiada goela abaixo dos prefeitos, e de quebra eles perderam a capacidade de gestão ou regulação sobre o HR, que hoje deixou de ser regional e passou a ser um hospital estadual, com alto índice de mortalidade.
Segundo Lages, o Cismepa tinha outra ideia para os primeiros serviços que seriam oferecidos no HR, bem diferente da escolhida pelo Estado. E talvez isso seja uma das causas da altíssima taxa de mortalidade do Hospital Regional (ops, Estadual). De acordo com o coordenador, abrir leitos de UTI sem o suporte necessário de outras especialidades e serviços não oferece praticamente nenhuma chan-ce de tratamento para os pacientes. “É exatamente o que está acontecendo no momento: é um perfil muito específico para pacientes, com poucas possibilidades terapêuticas, o que se traduz em um índice de mortalidade muito grande, se não houver um suporte adequado”, afirmou.
Segundo informações oficiais, a taxa de mortalidade do hoje ‘Hospital Estadual de Volta Redonda’ (nome que adotamos) chega a ser de 53%, o que Lages classifica como “uma catástrofe” em gestão hospitalar. “Isso está ligado diretamente à decisão anterior de abrir leitos de UTI sem a retaguarda necessária”, justificou.

Reverter o quadro
Rodrigo Lages garantiu ao aQui que o Cismepa está trabalhando para reverter a situação, fazendo com que o consórcio – as prefeituras, na verdade – tenham maior participação na gestão e na regulação das vagas do hospital. “Que volte a ser regional”, disse um dos secretários de Saúde. O pedido é compartilhado, até prova em contrário, pelo secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, que estaria disposto a compartilhar a gestão da unidade com os municípios. “Nós já estamos negociando com o Estado o redesenho dos serviços oferecidos no hospital, com a participação de todos os municípios, e devemos apresentar esse projeto à secretaria de estado de Saúde no fim deste mês”, disse Lages, afirmando que hoje o entendimento da secretaria de Saúde sobre o problema é outro. “Estão muito mais abertos ao diálogo”, crê.
O Hospital Regional, segundo ele, foi pensado originalmente para oferecer serviços de urgência referenciada, trau-mato-ortopedia, neuro-cirurgia, transplantes, cirurgia bariátrica, oftalmologia de alta e média complexidade, além da UTI, adulta e pediátrica. Atualmente, de acordo com Lages, o hospital funciona com somente 30% da sua capacidade. A ideia, segundo ele, é retomar conversas anteriores com o Ministério da Saúde, para que a principal fonte de financiamento da unidade seja proveniente de recursos federais.
“Já existe um compromisso do governador (Witzel) e do secretário de Saúde para esta articulação, e somado com a força dos 12 prefeitos da região, acreditamos que isso com certeza possa se efetivar, e que a gente tenha o nosso tão sonhado Hospital Regional funcionando na sua plenitude”, disse. Amém, enquanto é tempo!

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