Basta um ‘sim’ 

escoria csn

Na quinta, 23, a CSN foi alvo de mais uma ação de ambientalistas, políticos – candidatos ou não -, sindicalistas e, pra variar, de integrantes da Igreja Católica, inclusive do bispo D. Francisco Biasin. Só faltou a presença do ‘maluco beleza’ Cabo Dacioli, presidenciável do Patriota, que, do alto de uma montanha de escória, certamente iria amaldiçoar o empresário Benjamin Steinbruch, presidente da CSN, até bem pouco tempo atrás cotado para ser o vice na chapa de Ciro Gomes (PDT).

 

O movimento, que reuniu cerca de cinquenta simpatizantes verdes, entre eles políticos como Deley, deputado federal que vive em guerra com a direção da siderúrgica, foi criado para combater a poluição da CSN – originária tanto do pó preto quanto da escória que sai dos altos-fornos da Usina Presidente Vargas, em Volta Redonda, desde que foi criada, em 1941. “Se tem aço, tem poluição” deveria ser o slogan da época, e que estaria atualizado até hoje, pois a usina, na fabricação do aço, acaba gerando subprodutos, como a escória. 

 

Se a maioria dos presentes ao ato de quinta à noite, realizado no espaço da Cúria Diocesana, na Vila, doado pela própria CSN à Igreja Católica, tivesse a preocupação de levantar a fundo o assunto, incluindo aí os especialistas ambientais ligados ao MPF e ao MPE, eles poderiam se surpreender com um fato, descoberto pelo aQui: o problema da escória pode ser facilmente resolvido. Para isso, precisaria apenas do ‘sim’ da direção da CSN.

 

É que a escória produzida nos altos fornos da UPV é entregue a uma empresa multinacional, a Harsco Metals, que a leva para ser beneficiada em área da CSN, localizada na Brasilândia. Hoje, por exemplo, ver foto, existem dezenas e dezenas de ‘montanhas de escória’, que assustam os que passam pela BR-393. Algumas dessas montanhas têm até 40 metros de altura e em algumas dá para ver que o mato cresceu tanto ao longo dos anos que a montanha de escória parece mais um morro comum de terra.

 

O que a Harsco faz? Quando a gritaria contra a escória ganhou as manchetes dos jornais e os sermões dos padres, a CSN soltou uma nota oficial para explicar o que aconteceu: “No processo de beneficiamento, a parte metálica do material (da escória, grifo nosso) é separada e volta a ser usada no processo siderúrgico (na UPV). O que sobra (a escória depositada na Brasilândia) é estéril, incapaz de contaminar o meio ambiente, tanto é que é destinado para uso em pavimentação, em lastro de ferrovias e como base para asfaltamento de vias de tráfego, dentre outras formas de utilização. A CSN, inclusive, está em tratativas com órgãos públicos para a doação de parte desse material para recuperação de estradas vicinais no Rio de Janeiro”, explicou a empresa. Parte metálica para quem não sabe refere-se às placas de meio metro e um metro (apelidadas de ‘cabeças’) que são retiradas da escória bruta.

 

Embora com boas intenções, a CSN não explicou direito o que acontece com a escória. Não contou, entre outras, que a Harsco vende a parte do material metálico que devolve à UPV para outra empresa. Para a Sapporo, de Itaúna (MG), que trabalha com reciclagem e regeneração de resíduos classe 2 e que mantém contrato com a CSN até 2019. “A Harsco faz a separação dos dejetos da CSN. O que é metal (‘as cabeças’), ela manda de volta como sucata para a CSN. O restante do material é comercializado pela Harsco para diversos fins, como o de pavimentação. E a Sapporo é uma das empresas que compra a sobra do material”, explica uma fonte do meio, que pede que seu nome não seja revelado.

 

Ela vai além. Diz que o metal separado pela Harsco e vendido para a Sapporo, em uma trian-gulação existente há anos (a Sapporo é de 2007), é revendido pela empresa de Itaúna a pequenas siderúrgicas e fundições do estado de Minas Gerais. “Ela fica com o filé mignon da escória da CSN”, dispara a fonte, exemplificando: a tonelada da escória é vendida (pela CSN) por R$ 15. Ao revender as cabeças (sucata) para a Sapporo, a Harsco consegue um preço da ordem de R$ 30. E  a Sapporo, vejam só, consegue vender a tonelada do metálico por até R$ 800. Ou seja, obtém um lucro impressionante de mais de 2000% por tonelada”, dispara.

 

Mas como essa negociação poderia ajudar Volta Redonda a se ver livre da escória? Simples, muito simples: “Hoje a Harsco e a Sapporo detêm o monopólio da escória da CSN. Só elas podem comprar e vender. E não dão conta do recado”, ironiza a fonte, indo além. “Se a CSN abrir o mercado, logo aparece uma meia dúzia de empresas, incluindo as de Volta Redonda, interessadas em comprar e beneficiar a escória da UPV. A saída do produto seria agilizada e Volta Redonda poderia ficar livre das montanhas de escória”, garante a fonte.    

 

É bom frisar que nos tempos em que a CSN era uma estatal, de 1941 a 1993, a siderúrgica sempre vendeu a escória produzida nos altos fornos para qualquer empresa brasileira. Foi a partir da privatização, quando a CSN passou para as mãos de Benjamin Steinbruch, é que a Multiservice (que fazia o beneficiamento do produto) saiu de cena cedendo o lugar para a Harsco, que passou a monopolizar tudo o que é relacionado à escória da CSN.

 

A mudança de estatal para privada é que fez surgir, na Brasilândia, o cenário de um filme ambientado em Marte, e que mete medo nos ambientalistas e políticos. “Existem dois tipos de escória. Tem a escória já beneficiada, sem o metálico (as cabeças) que existia nela e que é vendida para a Sapporo. É a escória rica, que sai de Volta Redonda para ser vendida em Minas Gerais. E tem ainda a escória que está lá abandonada naqueles montes da Brasilândia, que cria problemas para a CSN. Na Brasilândia, tudo é escória já beneficiada; é apenas subproduto”, pontua a fonte.

 

Detalhes importantes: a escória que é depositada na Brasilândia depois de ser beneficiada pela Harsco é da CSN (deveria ser da Sapporo, grifo nosso) usa terras da siderúrgica e está se acumulando ao longos dos anos por ser economicamente inviável para ser removida. “A (escória) da Brasilândia não tem valor comercial, o valor dela é o transporte”, dispara a fonte. “Hoje, por exemplo, se você for (na CSN) comprar, eles vão te cobrar um real, cinquenta centavos a tonelada, que é o custo para poder carregar o caminhão. A outra escória que a Sapporo compra e beneficia deve estar custando de R$ 30 a R$ 40 a tonelada”, compara. “O metal nela contido deve chegar de 20 a 30%”, avalia, mostrando que o beneficiamento da escória é bom negócio. Um negócio da China. “O metal separado pela Sapporo é revendido em Minas Gerais como sucata nobre para ser derretida novamente”, justifica. “Leva a sucata nobre e deixa o subproduto na Brasilândia para a CSN tomar conta”, ironiza.

 

Ou seja, como não tem valor comercial e ninguém quer comprar nem um quilo, a escória da Brasilândia vai se acumulando. “O custo do frete inviabiliza o uso da escória por prefeituras distantes de Volta Redonda. Mesmo a um real por tonelada, ninguém quer”, realça a fonte, lembrando que mesmo sendo apontada como solução para a pavimentação de estradas vicinais, por exemplo, a escória é um subproduto que ‘demora a dar liga’. “Você pega a escória e espalha em uma estrada de terra. Tem que ficar uns seis meses debaixo de sol e chuva para ser sedimentada”, acrescenta.   

 

Para evitar o acúmulo da escória sem valor comercial na Brasilândia, a fonte lembra que abrindo a venda a quem quiser, a CSN poderá exigir que o produto seja beneficiado bem longe da UPV, bem longe da cidade do aço. “Quem comprar escória que a leve pra casa se quiser ganhar dinheiro”, ironiza a fonte. Ela tem razão. 

 

E por que a própria CSN não faz toda a operação hoje feita pela Harsco e pela Sapporo? A resposta também foi dada pela fonte do aQui, que insiste em manter o anonimato. “Porque o metálico vendido pela Sapporo é fino e nesse caso a CSN não tem interesse porque o forno de despoeiramento da usina perde o material; não consegue trabalhar com ele, atrapalha”, destaca a fonte, para acrescentar: “Se ela jogar esse material (o metálico da Sapporo) no forno, como ele é muito leve,  vai derreter na hora. Por isso não serve para a CSN, que só usa metálicos bem maiores (as cabeças de meio e um metro) como sucata para alto-forno. Esse metálico da Sapporo só deve ser usado pelas pequenas siderúrgicas e fundições, especialmente de Minas Gerais, para fazer outro tipo de aço”, justifica.

 

Indagado se o negócio da escória poderia interessar a muitas empresas, a fonte não titubeia. “Ah, muita gente vai querer”, diz, acrescentando um porém: “Os empresários têm que ter acesso ao estudo da CSN para avaliar se o investimento vai valer a pena. Tem que saber qual o custo para calcular o lucro. Uma coisa é separar e deixar a escória lá mesmo na Brasilândia. O custo aumenta se o empresário tiver que levar a escória para ser beneficiada em outro local”, justifica. “Mas pode ser bom, pois o aço beneficiado poderá ser vendido até para a própria CSN, que vai se ver livre da escória”, sentencia.

 

Para a fonte, essa solução pode realmente acabar com as montanhas de escória da Brasilândia. “Seria (solução) a CSN passar a vender material direto para todo mundo, para quem quiser comprar. Mas tem que ter licença para operar, ela (CSN) não pode vender para qualquer um porque ela vai ter que ter a destinação final da escória. Então quem tá ao lado do Paraíba, por exemplo, não poderá comprar, pois isso poderá criar outro problema”, finaliza.

 

Ainda sobre a escória, vale lembrar que quem comprar o produto da CSN (caso ela venda) poderá ter problemas para retirá-lo da Brasilândia. É que o Ministério Público Federal proibiu o transporte da escória feito por caminhões pelo centro da cidade do aço. A determinação é que a retirada do material seja feita por ferrovia, utilizando as composições que já atendem a CSN. Então, quem comprar a escória, caso ela seja mesmo vendida, irá comprar também o problema da logística, já que o MPF limitou esta questão com o apoio da Justiça. A decisão, é claro, pode ser derrubada a pedido dos ambientalistas, políticos e do bispo, se for o caso.

 

 Moinho de Vento

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Bem perto de Volta Redonda, existe outro depósito de escória de alto-forno que não deve incomodar ninguém. É que, até prova em contrário, nenhum ambientalista, sindicalista, político ou religioso, deve ter ido lá conferir o tamanho da montanha existente em uma área em Barra Mansa, bem próxima da Via Dutra. Já foi motivo até de reportagem do aQui (edição 932, de 14/3/2015). Neste caso, trata-se de escória retirada da Saint Gobain, siderúrgica barramansense. “É de uma empresa, que não me recordo o nome, que compra da Saint Gobain. É escória in natura. Compra, beneficia para tirar o ferro e vende de volta para a Saint Gobain. Cabe a ela (empresa) dar a destinação à escória in natura que adquire”, frisa a fonte.

O armazenamento e beneficiamento do produto siderúrgico é feito pela Comercial Rio Claro, uma empresa de Luiz Fernando Sapede, de Barra Mansa. A área de estocagem é imensa e para se chegar até ela é preciso pegar a Via Dutra, altura do bairro Moinho de Vento. O acesso é ruim, pois o trânsito de caminhões pesados é constante, o dia inteiro. A empresa usa até um caminhão–pipa para jogar água em toda a extensão da rua para evitar que a poeira também infernize a vida dos moradores e motoristas.  Alguns montes de escória chegam a ter o tamanho de um prédio de cinco andares.

Na época, o aQui chegou a procurar o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para saber se a empresa teria Licença Operacional para fazer o manuseio e beneficiamento da escória no bairro Moinho de Vento, em Barra Mansa, em local afastado e de difícil acesso. O Inea, entretanto, respondeu com uma promessa: que iria fazer uma vistoria no local. E fez. Após a vistoria, entretanto, não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Quem fez questão de esclarecer todas as dúvidas foi Luiz Fernando Sapede, proprietário da Comercial Rio Claro. Em visita à redação do jornal, ele apresentou a Licença de Operação e Recuperação 019948, do Inea, que garantia a legalidade do funcionamento de sua empresa. “Essa licença vai até 2017”, frisou na época, explicando que sua empresa faz o beneficiamento de produtos siderúrgicos classe II, que não seria perigoso. “Compramos esses resíduos, beneficiamos e depois vendemos para cerâmicas”, destacou Fernando.

O empresário ressaltou que era obrigado a ter, por exemplo, 14 poços de monitoramento do solo na área de sua empresa no Moinho de Vento. “Tenho que ter várias obrigações, como jogar água no caminho da empresa para a poeira não ser grande. Estou no mesmo local, trabalhando com isso, há 40 anos. Somos legalizados e o serviço não gera nenhum risco. O produto siderúrgico não é contaminado e seguimos a legislação ambiental”, garantiu Fernando.

Nota da redação: A direção da CSN foi procurada pelo aQui para se posicionar a respeito da possibilidade de abrir a venda da escória a outras empresas do setor siderúrgico. O que não ocorreu até o fechamento desta edição, ontem, sexta, 24.  

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