Águas vão rolar

 

 

Por Roberto Marinho

O bom jornalismo tem um princípio básico: ouvir as partes envolvidas em uma história. Além de dar a chance para que cada um conte sua versão, o princípio permite que o jornalista descubra se o que os personagens querem contar é ‘a verdade verdadeira’. Pois bem, foi isso que o aQui fez na terça, 12, quando esteve nas obras de construção de um novo trevo na Rodovia dos Metalúrgicos, ao lado do Portal da Saudade, que vai criar uma rotatória, com seus próprios recursos, para acesso ao cemitério, beneficiando ainda seus vizinhos, como o shopping Park Sul.
A obra, gigantesca, está em fase de terraplanagem e estaria assustando mora-dores do Jardim Belvedere, Jardim Tiradentes, Casa de Pedra e Siderópolis, que questionam o que será feito no local, e, principalmente, o fim que será dado à “lagoa” existente no local, que pertence à família Campos Pereira. E ainda querem saber como será resolvida a questão do escoamento das águas de chuva, que costumam alagar a Rodovia dos Metalúrgicos.

A obra, em tese, não tem nada a ver com a prefeitura de Volta Redonda. É particular e está sendo feita pelo proprietário do Portal da Saudade, Mauro Campos – o “Seu Mauro”, pai de Maurinho, ex-assessor do prefeito Samuca Silva. O interesse do Palácio 17 de Julho no empreendimento, calculado em cerca de R$ 2 milhões, envolve o trânsito da rodovia, o acesso ao novo shopping, ao cemitério, ao Jardim Belvedere, além da construção de uma ciclovia e uma pista de caminhadas. Para que tudo saia do papel, Samuca fez uma parceria com o empresário, autorizando o início das obras.
A visita que o aQui fez para tirar todas as dúvidas sobre a obra foi na companhia do engenheiro civil responsável pelo empreendimento, Júlio César Pires Pereira, e do próprio Mauro Campos. Segundo eles, ao contrário do que se tem comentado – que a obra estaria assoreando a lagoa existente no local, o empreendimento vai ajudar a regularizar a vazão das águas da chuva em toda a região, além de recuperar uma lagoa existente do outro lado da rodovia, no Condo-mínio Vivendas do Lago.
“O pessoal fala que tem lagoa ali, mas não é isso. Eles passaram uma manilha de 800 milímetros embaixo da (garagem da viação) Agulhas Negras e a água dessa bacia toda passaria por essa manilha, que não dá vazão. Isso foi em 1975 – há cerca de 50 anos. Além disso, a manilha entupiu e não conseguia recolher toda a água da chuva, que acabava represando e formando esse brejo, que nunca foi lagoa”, explica seu Mauro, afirmando ainda que a obra, junto com a nova rotatória, vai transformar a entrada da cidade do aço. “Vai dar orgulho ao voltarredondense”, crê.

Já o engenheiro responsável pela obra aponta outro erro do passado, cuja conta está sendo apresentada agora: durante as construções ao longo da rodovia e na entrada do Jardim Belvedere – garagem das viações Agulhas Negras e Elite, por exemplo, o terreno foi ficando mais alto por causa dos aterros feitos. Com isso a manilha de 800 milímetros ficou alta e acaba não recolhendo a água da chuva, aumentando o represamento, formando a tão falada “lagoa”. Que na verdade, ao que tudo indica, segundo ele, seria apenas uma poça d’água de tamanho gigante.
“O curso natural das águas pluviais foi interrompido, porque essa manilha de 800 milímetros não comporta, por conta do cálculo mal dimensionado e pela altura que a manilha ficou”, explica Júlio César. Segundo ele, o que piora a situação é o fato de não haver nenhum sistema de drenagem ao longo da Rodovia dos Metalúrgicos.
“Ao longo da estrada não tem nenhum bueiro. A captação de água é inexistente. Por três vezes este ano já alagou a rodovia. Agora, com essa obra que o Seu Mauro está fazendo, vamos fazer uma rede de 1,50m, resolvendo o problema da Rodovia dos Metalúrgicos, que fica meia hora, 40 minutos, parada (com as chuvas), porque não tem um bueiro”, pontua.

O engenheiro explica que serão construídas caixas de drenagem a cada 50 metros no trecho desde a entrada do Portal da Saudade até o Jardim Belvedere. Todo esse sistema de drenagem será interligado a uma galeria existente embaixo do Hospital Unimed, que, por sua vez, desemboca no Córrego Cafuá. “Estamos terminando essa rede e iniciando o serviço no terreno da Agulhas Negras para depois interligarmos na rede de água pluvial, o que vai resolver o problema (de escoamento). Na pista da direita (em direção ao Portal da Saudade) vamos manilhar com 1,50m ao longo da estrada para depois interligarmos com uma galeria com duas manilhas de dois metros, que passa embaixo do estacionamento da Unimed”, detalhou.

Outro ponto é que a obra de drenagem também vai beneficiar a lagoa existente no loteamento Vivendas do Lago (que não pertence a Mauro Campos, grifo nosso) ao coletar o excesso de água das chuvas, evitando o alagamento na rodovia. Para isso, uma ligação existente entre as duas bacias, por debaixo da Rodovia dos Metalúrgicos, terá que ser refeita, já que entupiu ao longo do tempo. “O secretário de Meio Ambiente de Volta Re-donda, Maurício Ruiz, solicitou que o proprietário do loteamento Vivendas do Lago refaça o manilhamento para a lagoa voltar a ter a função de extravasor, porque ela está em um nível mais baixo e regula a vazão de toda a bacia dessa região”, afirmou Júlio César.

Liga pra São Pedro
O engenheiro afirma ainda que a obra está atrasada, mais por causa da chuva.“A gente tem que falar com São Pedro porque ele está nos castigando. Estamos passando aperto. Essa obra não era para ser realizada nesta época, mas a pedido do prefeito Samuca Silva é que a gente encarou”, explicou, afirmando que a insistência do secretário de Mobilidade e Transporte Urbano de Volta Redonda, Maurício Batista, que também acompanhou a visita do aQui à obra, foi fundamental para que a obra fosse realizada. “Ele me procurava de manhã, de tarde e de noite”, diz Júlio César, meio brincando, meio sério.

O engenheiro também revelou que existe um projeto na prefeitura de Volta Redonda para se fazer uma bacia de regulação, no terreno atrás da Unimed, onde existe um córrego e um terreno vazio. “É um açude seco, que se mantém sempre baixo, um ‘piscinão’, que ajuda a regular toda a vazão das chuvas nessa bacia”, explica Júlio César.

Quanto ao futuro do imenso terreno – que será gramado, por enquanto , Seu Mauro faz um certo mistério, mas confirma informações já veiculadas pelo aQui de que uma multinacional francesa estaria de olho no local. “Primeiro nós estamos tratando do acesso de Volta Redonda, o progresso vem atrás. Mas já tem uma firma francesa que está em cima”, diz ele, sem revelar nem de qual ramo seria a multinacional, que liga dia sim outro não para o seu escritório. “Eu sou o único empresário do mundo que tem um escritório em um cemitério”, brinca, referindo-se ao fato de ser o proprietário do Portal da Saudade. “Tenho 15 mil hóspedes”, reforça.

Jardim Belvedere pode ter nova entrada

A implantação da rotatória na Rodovia dos Metalúrgicos, além de reordenar o trânsito próximo ao Portal da Saudade, beneficiando o Park Sul, também prevê a criação de um novo acesso ao Jardim Belvedere, que atualmente conta com uma única entrada. A previsão é que o novo acesso ligue a Rodovia dos Metalúrgicos ao loteamento Mata Atlântica, dentro do Belvedere. O tráfego, neste caso, vai desembocar na Avenida Álimo Francisco, que é uma via de duas pistas. “Ao tirar aquele morro (com a obra de terraplanagem, próximo da nova entrada do Portal da Saudade, grifo nosso) vão faltar 500 metros para o Jardim Belvedere”, diz Seu Mauro, que, no entanto, descarta fazer a obra. “Não vou fazer isso, não sou prefeito”, afirma, rindo. Ele, no entanto, aposta que Samuca vai tentar fazer com que ele cuide do acesso ao bairro. “É um cara bem intencionado, que eu admiro”, diz, dando a entender que Samuca tem tudo para convencê-lo.

Seu Mauro confessa ainda que “adora” a movi-mentação de caminhões pela obra e brinca com a própria idade. “Eu adoro isso aqui. Estou gastando esse dinheiro todo porque eu estou cantando pra subir, é o que meus filhos acham”, diz, bem humorado, revelando que está prestes a completar 90 anos. “A gente tenta fazer o melhor para a cidade”, afirma, certo de que seus filhos não aprovam suas decisões. “Eles têm a vida deles, eu tenho a minha”, lembrou, mostrando que existe uma divergência de interesses na família.

‘Brejo preservado’

Em nota, o secretário de Meio Ambiente, Maurício Ruiz, garante que a obra do loteamento dos Campos Pereira é regular e que todas as medidas ambientais necessárias foram tomadas. “A obra tem projeto e licença ambiental, assim como todos os projetos no município, e esse vem sendo acompanhado pelos técnicos da secretaria de Meio Ambiente. O brejo, denominado popularmente como “lagoa”, será preservado como bacia de contenção para regulação do fluxo hídrico durante o período da chuva. Um extravasadouro manterá a umidade do local mesmo durante o período da seca”, crê Maurício.

Ele vai além. Informa que o empresário “firmou compromisso” com a secretaria de Meio Ambiente para transformar o entorno do lago em espaço verde e público. “Este mesmo lago terá sua vazão regularizada para que funcione como bacia de contenção de água”, explica. “A obra tem importância social, pois resolverá o fluxo do trânsito no local e contribuirá para a regularização da drenagem do condomínio próximo, que flui para a Rodovia dos Metalúrgicos em dias de chuva forte”, acrescenta Ruiz.

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