“Agrediu a mulher, vai preso!”

Por Roberto Marinho

A segunda parte da entrevista exclusiva do aQui da tenente-coronel Andréia Ferreira da Silva Campos, que assumiu o Batalhão do Aço, responsável pelo policiamento em Volta Redonda, Barra Mansa e Pinheiral, é tão explosiva quanto foi a primeira (edição 1187). Nesta, a policial diz que as drogas são responsáveis pelo aumento da violência na região, e afirma que a melhor saída é a prevenção, feita a partir de programas da Polícia Militar como o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas), onde os policiais abordam o tema para os alunos das escolas públicas. “O tráfico existe porque tem o usuário, então acredito muito também em um trabalho preventivo”, justifica.
Outro projeto da Polícia Militar que a comandante valoriza muito é o da Patrulha Maria da Penha, com policiais especializados no atendimento das ocorrências envolvendo agressão e ameaças a mulheres. Sobre os “machões” que gostam de agredir as companheiras – ou qualquer outra mulher -, Andréia Ferreira foi curta e grossa: “Bateu na mulher, vai ser preso”.
Confira a seguir, a parte final da entrevista com a comandante do 28º Batalhão:

aQui – Sempre que a segurança pública é reforçada na capital e na região metropolitana, nós ficamos com a sensação de que a violência aumenta no interior, principalmente em cidades onde circula mais dinheiro, como Volta Redonda. Qual a opinião da senhora sobre isso?
Comandante Andréia –
Eu não tenho como constatar a veracidade desse movimento migratório de marginais para Volta Redonda, para que isso seja o fator deter-minante para o aumento da criminalidade. Eu não tenho como afirmar isso. A gente precisa fazer um trabalho de pesquisa, com os dados das ocorrências. Os elementos que são presos, temos que levantar o registro deles, ver se já foram presos antes e por quê.
Mas eu credito, de maneira geral, o aumento da violência à questão da droga. O tráfico existe porque tem o usuário. E acredito muito também em um trabalho preventivo. Não um trabalho preventivo só da Polícia Militar – que trabalha com a prevenção da criminalidade -,, mas também de outros órgãos que podem estar atuando junto conosco nessa prevenção.

aQui – Como assim?
Andréia –
Nós fizemos uma reunião com o Conselho Escolar, colhemos informações de professores, diretoras, do que está afligindo a comunidade escolar em relação a problemas com os jovens. E na maior parte das vezes o que eles nos passam é que cada vez mais cedo eles (estudantes) estão se envolvendo com as drogas. E, em consequência, há também o aumento no número de homicídios, de furtos e roubos, sustentar o vício. Eu acredito muito que o vício esteja levando a esse tipo de situação mais até que o movimento migratório. Que pode estar ocorrendo realmente ou não.

aQui – O que fazer nas escolas?
Andréia –
Para isso temos o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas), que se iniciou 28 anos atrás, quando eu estava entrando na Polícia Militar. Eu tenho um carinho muito grande pelo Proerd. Eu estava entrando, você vê o crescimento do projeto. Existe um levantamento na PM – eu não tenho aqui – das crianças assistidas e os números são muito positivos. O projeto realmente funciona, quem dera tivéssemos efetivo para fazer ‘não só nas escolas públicas, mas também nas (escolas) particulares.

aQui – E a Patrulha Maria da Penha?
Andréia –
Eu acredito muito no Proerd, como também acredito muito na Patrulha Maria da Penha. Aqui em Volta Redonda, embora exista um número pequeno de homicídios ligados à questão do gênero, eles existem. Temos muitas ocorrências atendidas pelos nossos policiais, de mulheres que estão sofrendo violência e abusos. Inclusive neste final de semana (dias 8 e 9 de fevereiro, grifo nosso) tivemos dois elementos presos, em decorrência de agressão a mulheres.

aQui – Os PMs do 28º Batalhão estão preparados para atender as voltarre-dondenses?
Andréia –
A Patrulha Maria da Penha trabalha muito com mulheres que têm medida protetiva expe-dida pelo Judiciário. São mulheres que já sofreram violência e estão sendo atendidas por essa patrulha, especificamente, até para que não haja reincidência. É uma guarnição especialmente treinada e preparada para atender este tipo de ocorrência.
Mas, de maneira geral, todo o nosso patrulha-mento está apto a atender mulheres que estejam se sentindo ameaçadas ou sendo vítimas de violência. Se (ela) está se sentindo ameaçada ou foi agredida, pode ligar para o 190. Se a Patrulha Maria da Penha não estiver rodando – por ser final de semana ou horário noturno -, uma patrulha normal irá atender ao chamado. É também um trabalho preventivo, porque o agressor precisa saber que vai ser preso. Se agredir a mulher, vai ser preso, podem acreditar.

aQui – É um recado claro, então?
Andréia –
Eu pedi para levantar os números da Patrulha Maria da Penha aqui em Volta Redonda, para verificar se está havendo reincidência, e nós vamos divulgar este levantamento. Acho que é um trabalho que vale a pena dar visibilidade porque quando o possível agressor – que já está planejando alguma coisa, perseguindo a mulher – souber que ele vai ser preso, vai repensar. Se agredir a mulher vai ser preso, e parece que eles (agressores) não sabem disso.

aQui – É importante falar disso porque as mulheres têm muito medo de denunciar, não é mesmo?
Andréia –
Sim, com certeza. E a patrulha (Maria da Penha) trabalha exatamente neste aspecto. As guarnições que trabalham na Patrulha Maria da Penha têm um curso, onde aprendem como atender essas mulheres, como acalmar, para que órgãos eles devem encaminhar as vítimas. É um trabalho bem específico. Agora, em um momento de emergência, é ligar 190. Mas se a mulher estiver sendo agredida ou ameaçada e quiser uma orientação, é só vir aqui no quartel da Polícia Militar (no início da Voldac, grifo nosso) e procurar a guarnição Maria da Penha, que os policiais vão atendê-la na mesma hora. Temos até uma sala específica para esse atendimento aqui no quartel.

aQui – Prevenir?
Andréia –
É um projeto que considero muito importante, até pelo aspecto preventivo: tem o aspecto de encarcerar aqueles que cometeram um delito, mas também de prevenir que mais mortes aconteçam. Porque eles (agressores) acreditam que a mulher vai se acovardar e não vai levar aquilo à frente (denúncia, grifo nosso), ou que vai perdoar. Então tem esse aspecto, inclusive um dos nossos policiais comparece ao Judiciário, faz palestra para os homens cujas companheiras estão sob medida protetiva. E nós temos essa estatística: os homens sob o atendimento da Patrulha Maria da Penha não se tornam reincidentes. Nós temos esses números, é comprovado. E neste caso – de agressão a mulheres – só temos como prevenir, não é um crime que consigo combater com policiamento ostensivo.

aQui – É um crime que acontece dentro de casa?
Andréia –
Exatamente. Não é uma coisa que basta colocar a patrulha na esquina para inibir. Há a necessidade que as pessoas participem, denunciem. Tanto que existe aquele slogan: “Em briga de marido e mulher vamos meter a colher”. Aquele que tem notícia (de agressões), como, às vezes o vizinho sabe, está ouvindo, que ele ligue para o 190 que nós vamos até lá. É muito importante as pessoas não se omitirem.

aQui – Quais outros projetos da Polícia Militar a senhora destacaria?
Andréia –
Temos o Pamesp Escolar (Policiamento Motorizado Especial Escolar), que aqui em Volta Redonda antes era feito em conjunto com a Guarda Municipal. No comando anterior houve a decisão de separar, que eu acho acertada, porque hoje em Volta Redonda temos a patrulha escolar da Guarda Municipal, e a da Polícia Militar.
Mas as duas guarnições trabalham em conjunto, os agentes trocam informações a respeito de quais colégios estão com problemas, que a diretora está pedindo auxílio da patrulha escolar. Foi uma decisão do comando anterior que eu endosso, e acho que foi um ganho para Volta Redonda nesse sentido.

aQui – Ligando com a questão das drogas que a senhora citou, acaba funcionando como prevenção?
Andréia –
Sim, é uma ferramenta de prevenção. Não deixando de frisar que a gente necessita de todo mundo nessa rede. O próprio Ministério Público, as escolas, professores, diretores. Quanto mais pessoas e órgãos estiverem participando, teremos melhores ganhos no futuro.

aQui – Que mensagem a senhora deixaria para a população de Volta Redonda?
Andréia –
Conte com a Polícia Militar; conte com nosso trabalho. Estamos aqui para servir 24 horas por dia e acho que a população tem que cobrar seus direitos. Somos servidores públicos, estamos aqui para atender a população. Eu não me importo de ir a reuniões, sempre me coloco à disposição. O Batalhão está de portas abertas, de forma bem democrática. Temos os conselhos comunitários, atendemos às associações de moradores que tenham algum tipo de problema mais específico. Esta-mos de portas abertas para atender as pessoas e as demandas da população de Volta Redonda.

aQui – E a senhora pretende sair daqui revertendo as estatísticas, como fez em Resende?
Andréia –
Sim, pretendo. Estamos trabalhando muito para isso, desde o dia em que assumi.

Milicianos no Retiro

Na entrevista exclusiva dada ao aQui, publicada na edição passada, a tenente-coronel Andréia Ferreira da Silva Campos, que assumiu o comando do 28° BPM, anunciou que vai investigar as denúncias sobre a atuação de bandidos de Angra dos Reis na parte alta do Retiro. Depois de invadir o bairro, os milicianos passaram a atemorizar os moradores. Andavam bem armados, davam tiros para o alto como forma de intimidação e chegavam, vejam só, a promover churrascos no meio da rua, mesmo em dias da semana. “Vamos apurar o que está acontecendo”, disse a comandante.
Para diminuir a violência em Volta Redonda, que teve 24% a mais de assassinatos em 2019 comparando com o ano de 2018, a tenente-coronel disse que vai adotar um policiamento mais dinâmico nas cidades abrangidas pelo 28º BPM. Outra ação será promover operações para “tirar armas de circulação”, além, é  claro, de buscar a redução do consumo de drogas entre os jovens. “A prevenção é a melhor arma contra isso”, justificou. 
De acordo com a tenente-coronel, o que precisa ser feito para diminuir a violência na cidade do aço, de imediato, é dar dinamismo e policiamento. “A gente não pode trabalhar de forma estática e entender que todos os dias da semana são iguais, que tudo acontece da mesma forma. A gente pretende trabalhar com dados, que chegam através da delegacia (Polícia Civil, grifo nosso), de informações que chegam através do Disque Denúncia, que a população nos passa, para dar dinamismo ao policiamento”, disse, entre outras.
A entrevista completa está disponível em www.jornalaqui.com ou pelo Facebook em fb.com/jornal.aqui

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