Acredite se quiser!

Por Pollyanna Xavier

A estatística é assustadora: em 2018, pelo menos em nove estados brasileiros, morreram mais pessoas em acidentes de trânsito do que por armas de fogo. A constatação é da Seguradora Líder – responsável pelo seguro DPVAT –, que elaborou um estudo com base nas indenizações pagas às vítimas de acidentes de trânsito ou aos seus familiares. O estudo comparou o total de indenizações pagas por morte com os dados das Secretarias Estaduais de Segurança Pública. Destes nove estados, São Paulo e Minas lideram a lista e, pasmem, o Rio de Janeiro não apareceu no ranking.
A ausência do Rio na listagem da Seguradora Líder não significa que no estado os números de vítimas fatais no trânsito sejam baixos. Não são. No primeiro semestre de 2019, por exemplo, a Seguradora Líder pagou 1.998 indenizações a pedestres em todo o estado do Rio. Deste total, 1.091 eram de acidentes envolvendo automóveis, 121 envolvendo caminhões, 597 envolvendo motocicletas, 186 ônibus ou micro-ônibus e pelo menos três envolvendo ciclomotores. Cerca de 500 indenizações foram pagas a familiares dos pedestres que morreram e outras 1.078 a pedestres que ficaram com invalidez permanente.
Na semana passada, durante as comemorações da Semana Nacional do Trânsito, o Detran-RJ lançou a terceira edição do Dossiê Trânsito – uma publicação que reúne dados estatísticos referentes a 2018, elaborada pela Coordenadoria de Estatística e Acidentologia do departamento, em conjunto com equipes do Instituto de Segurança Pública e da Polícia Civil (ISP). O documento apresenta informações sobre acidentes fatais e não fatais, e ainda sobre infrações no trânsito e o perfil dos condutores e infratores, além das alterações na legislação que visaram à redução de acidentes e à preservação da vida.
Segundo o Ministério da Saúde, a cada 15 minutos uma morte é registrada nas ruas e estradas do país. Dados da Organização Mundial de Saúde mostram que o trânsito é a causa número um de morte de crianças e adultos entre cinco e 29 anos. No Dossiê Trânsito 2019, as estatísticas encontradas no estado do Rio não são as melhores: cerca de seis pessoas morreram por dia vítimas de acidente de trânsito no estado. Isso mostra que políticas públicas voltadas para a segurança no trânsito são extremamente necessárias.
O documento traz ainda conclusões sobre estatísticas das chamadas do Serviço 190 e de internações decorrentes de acidentes de trânsito em leitos do SUS. “Estamos travando uma luta diária pela vida. Podemos ver, folheando esse trabalho, que temos acidentes por excesso de velocidade e por atropelamento, em sua maioria. Ou seja, motoristas e pedestre sofrendo juntos”, lamentou o vice-governador Cláudio Castro. Para ele, o dossiê pode ajudar a mudar a sociedade na prática. “É fantástico o que estamos fazendo para que possamos entender o que acontece no estado e trabalhar para mudar isso”, comentou.
A fala do vice-governador durante a apresentação do Dossiê Trânsito foi reforçada pela do coordenador de Estatísticas e Aciden-tologia do Detran-RJ, Pedro Pepe. Para ele, os dados homologados “buscam fornecer dados confiáveis no sentido de descrever a magnitude de problemas ligados à área de trânsito e com isto subsidiar programas de educação no trânsito e políticas na prevenção de acidentes de trânsito”. “A utilização das estatísticas de acidentes de trânsito é primordial para identificar riscos, desenvolver estratégias e intervenções corretivas”, afirmou Pedro Pepe.
Outra informação importante sobre a comparação das mortes violentas (crimes com arma de fogo) e mortes no trânsito é que 9,6% das mortes violentas em todo o estado do Rio são vítimas do trânsito. “É um número muito grande que pode ser evitado com mais educação e respeito às leis de trânsito”, destacou o presidente do Detran, Marcelo Bertolucci, durante a apresentação do Dossiê Trânsito.
O documento tem 82 páginas e lembra um anuário. Nele contém um panorama detalhado sobre acidentes e infrações de trânsito, estatística de mortes, acidentados e inválidos por número de habitantes, lei seca, ações educativas, perfil dos infratores e condutores, blitzes, dentre outras questões. Trata-se de um documento público que pode ser acessado por qualquer pessoa pelo site http://www.detran.
rj.gov.br/_include/estatistica/dossie_transito_2019.pdf

O aQui traz a seguir o resumo das
principais informações desse Dossiê, confira:

Acidentes de trânsito
O levantamento do Dossiê Trânsito mostra que em 2018 quase duas mil pessoas morreram vítimas de acidentes nas estradas, ruas e avenidas em todo o estado do Rio. E quase 30 mil sofreram ferimentos leves, moderados ou graves. O número exato é de 27.520 pessoas, indicando uma média diária de 81 feridos. No caso das mortes no trânsito, a média é de 11 vítimas para cada 100 mil habitantes.
O documento também apresenta o número de vítimas fatais por macrorregião do estado. O interior, por exemplo, apresentou a maior taxa por 100 mil habitantes: foram 14,1 mortes. “Mais de um terço das mortes no trânsito (35,2%) foram provocadas por atropelamento e 24,7% por colisão de veículos”, informa o Dossiê. Mais de 44,7% das vítimas fatais de atropelamento tinham mais de 60 anos e 37,3% das vítimas fatais por colisão de veículos tinham entre 18 e 29 anos. Ainda sobre o perfil dos acidentes de trânsito, 26,6% das vítimas não fatais tinham entre 30 e 45 anos e 37,7% das vítimas de lesões corporais por colisão de veículos também tinham entre 30 e 45 anos.
De forma completa, o Dossiê traz ainda o número de vítimas não fatais durante 2018. A boa notícia é que essa base anual foi considerada a segunda menor taxa de toda a série histórica, com 161,6 vítimas lesionadas por 100 mil habitantes. O maior registro foi em 2011, com 350,0 vítimas por 100 mil habitantes. Entre as regiões do estado, a Grande Niterói (Niterói, Maricá e São Gonçalo) apresentou a maior taxa de vítimas: 206,5 por 100 mil habitantes. Nos acidentes com vítimas não fatais, 23% foram motivados por causa de batida de veículos e 11% por atropelamentos.

Infrações de trânsito
Segundo a Coordenadoria de Estatística e Acidentologia do Detran, em 2018 foram cometidas 4.822.305 infrações de trânsito no estado do Rio de Janeiro. Metade dessas infrações foi por excesso de velocidade. A capital é a região do estado com a maior proporção de infrações (60,6%), seguida do Interior (22,3%). Os dados não trazem as informações por microrregiões do estado; por conta disto, não é possível saber quantas dessas infrações foram cometidas no Sul Fluminense.
Ao analisar o perfil dos infratores de trânsito, a Coordenadoria de Estatística observou que 59,6% são homens e 22,1% são mulheres, provando que as mulheres são mais prudentes e cuidadosas na direção. A faixa etária de 31 a 40 anos foi a que apresentou o maior número de infratores no ano passado, representando 21,1% das autorias, seguida da faixa de 41 a 50 anos, com 18,9% das infrações cometidas.

Operação Lei Seca
O Dossiê Trânsito 2019, cuja base de dados refere-se ao ano de 2018, traz ainda um capítulo especial sobre as ações envolvendo a Operação Lei Seca em todo o estado do Rio de 2009 a 2018. O destaque é justo: em 2019 comemora-se 10 anos de existência da Operação Lei Seca. Segundo os órgãos envolvidos na elaboração do Dossiê Trânsito, o governo do Estado desenvolveu uma política pública, de caráter permanente, cujo objetivo principal é reduzir os acidentes de trânsito no estado, além de advertir a população sobre os perigos da condução de veículos sob efeito do álcool. As ações dessa política conhecemos como Operação Lei Seca.
Na prática, trata-se de ações de conscientização em locais de grande circulação e concentração de público, além da realização de blitz em vias públicas. Os agentes envolvidos nesta operação são lotados nas secretarias de Estado de Governo e Relações Institucionais (Segov), Casa Civil e Governança e ainda no Detran-RJ. Juntos, esses órgãos firmaram uma parceria para atuar especialmente na Operação Lei Seca.
Desde que foi implementada, em 2009, o número de ações cresceu a cada ano, sendo que em 2015 ocorreu o pico de atividades envolvendo a Operação. Naquele ano foram realizadas 2.984 operações e o resultado foi bastante positivo: entre 2015 e 2016 foram registradas as menores taxas de acidentes fatais no estado e os índices de acidentes não fatais tiveram quedas expressivas.
De lá pra cá, a Operação Lei Seca manteve o fluxo de ações, abordando um total de 328.738 condutores por ano, indicando uma média de 900 condutores por dia. Destes, 14.147 foram flagrados pelos agentes com sinais de alcoolemia. Uma curiosidade: 80% dos condutores flagrados pela Operação Lei Seca se recusam a realizar o teste do etilômetro. “Quando é constatada a alcoolemia no trânsito, o condutor tem sua habilitação ou permissão para dirigir recolhidos e, após os trâmites administrativos, ele fica suspenso por 12 meses. É aplicada uma multa para infração gravíssima com multiplicador de dez vezes, podendo chegar a um valor de R$ 2.934,70”, informa o documento. Sem contar, claro, que o veículo fica retido.

Outros olhares
Na seção “Outros olhares” do Dossiê Trânsito 2019, há dois artigos distintos. O primeiro, escrito por Nadine Melloni, do ISP, analisa as chamadas para o Serviço 190 da Polícia Militar, relacionadas a acidentes de trânsito. De todas as ligações realizadas, em 2018, na Região Metropolitana do Rio, os acidentes de trânsito com vítima apareceram como o oitavo motivo mais frequente com aproximadamente 30 mil ligações. Destas, 67,8% geraram despachos de viaturas – ocupando a quinta posição entre os motivos mais recorrentes de despacho.
O segundo artigo é uma análise sobre internações e óbitos por acidentes de trânsito e foi escrito por Aloísio Geraldo Sabino Lopes, responsável pelo DATASUS, da Secretaria de Estado de Saúde. O artigo leva em consideração os dados de 2018 e mostra que foram registradas uma média diária de 30 internações no SUS decorrentes de acidentes de trânsito. No ano, o número chega a 10.950 internações. Deste total, 96% receberam alta e 4% faleceram no hospital. A maior parte das vítimas é de atropelamentos e acidentes com motocicleta. Segundo o artigo, o valor médio de cada internação foi de US$ 426 para os cofres públicos.

Celular, arma mortifera
A lei é clara e a multa é altinha: o motorista pego na direção falando e manuseando o celular perde 11 pontos na carteira e ainda é multado em R$ 423,64. A prática, considerada infração gravíssima, é responsável por vitimar diariamente 150 pessoas no trânsito de todo o Brasil. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) revelou que o uso de celular na direção é a terceira maior causa de mortes de trânsito no Brasil. Dados do Ministério da Saúde confirmam a pesquisa da Abramet ao divulgar um dado inédito: 19,3% da população das capitais brasileiras afirmam fazer o uso do celular enquanto dirigem.
O levantamento deste dado inédito é do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), que também aponta que pessoas com idade entre 25 e 34 anos (25%) e com maior escolaridade (12 anos de estudo ou mais) (26,1%) são as que mais falam ao celular enquanto dirigem. Os dados referem-se a 2018.
O Vigitel é uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, que, desde 2006, monitora diversos fatores de risco e proteção relacionados à saúde, incluindo a temá-tica de trânsito, em todas as capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Nesta edição foram entrevistadas por telefone 52.395 pessoas, maiores de 18 anos, entre fevereiro e dezembro de 2018. No levantamento feito pelo Vigitel, motoristas do estado do Rio representam 17,2% do total entrevistado.
Além do uso do celular associado à direção, a pesquisa abordou também outros três importantes indicadores para a ocorrência de acidentes de trânsito: direção e consumo abusivo de álcool; direção e consumo de qualquer dose de álcool e excesso de velocidade. Aliás, o Vigitel também levantou dados quanto às multas aplicadas por excesso de velocidade. Cerca de 10% (o percen-tual exato é 11,4%) da população entrevistada afirmou já ter recebido multas de trânsito por excesso de velocidade.
Sobre álcool e direção, a pesquisa indicou que a proporção de adultos que informaram já ter conduzido veículos motorizados após consumo de qualquer quantidade de bebida alcoólica foi de 5,3%, sendo maior entre homens (9,3%) do que mulheres (2%). A associação entre consumo de álcool e direção ocorreu principal-mente em indivíduos de maior escolaridade (8,6%) e com idade entre 25 e 34 anos (7,9%). Dentro desta categoria, o Rio de Janeiro é uma das capitais com menor proporção: apenas 2,9%.

Vida no Trânsito
Em parceria com estados e municípios, o Ministério da Saúde desenvolve, desde 2010, o ‘Programa Vida no Trânsito – PVT’, que se apresenta como a principal resposta aos desafios da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Década de Ações pela Segurança no Trânsito. Trata-se de um Programa intersetorial que busca, a partir de evidências produzidas localmente, subsidiar intervenções nos âmbitos de engenharia no trânsito, fiscalização, educação e atenção às vítimas. Ele tem como meta reduzir 50% dos óbitos por acidentes de trânsito entre 2011 a 2020.
Lançado em 2010, o PVT está implantado em 26 capitais e 26 municípios, alcançando uma população de aproximadamente 50,6 milhões de habitantes. Desde a sua implantação, o programa vem auxiliando os governos federal, estadual e municipal na adoção de medidas para prevenir os acidentes de trânsito, reduzindo mortes. Entre 2010 e 2017, o Brasil reduziu em 17,4% o número de mortes por acidentes de trânsito, passando de 42.844 para 35.374.

Acidentes com motos
Apesar doa programas e ações que visam o cuidado no trânsito para a preservação da vida, ainda é grande o número de pessoas que morrem todos os anos vítimas de acidentes. As estatísticas mostram que a maior incidência de acidentes está entre os motociclistas. Segundo a Seguradora Líder, quase 200 mil indenizações foram pagas por morte com motocicletas nos últimos dez anos, totalizando R$ 3,2 milhões. Tem mais,. Os dados revelam que 2,5 milhões receberam indenização por algum tipo de invalidez permanente. Os números ainda mostram que, na última década, os benefícios a vítimas de acidentes com motos e as “cinquentinhas” representam 72% do total de pagamentos efetuados pelo seguro obrigatório.
Os dados são do dossiê ‘Motocicletas e Ciclomotores Dez Anos’, da própria Seguradora Líder, com o objetivo de dar visibilidade ao problema de violência no trânsito. Entre 2009 e 2018, as indenizações pagas pelo DPVAT cresceram 28%. Quando observadas apenas as ocorrências com motocicletas e ciclomo-tores, o aumento foi de 72%. Os casos de invalidez permanente por conta de acidentes são os que mais chamam atenção, com crescimento de 142% na comparação entre 2009 e 2018. Já os pagamentos por acidentes fatais aumentaram 14%.
Quanto ao perfil das vítimas, os motociclistas são os mais atingidos nos acidentes com motocicletas e ciclomotores. Entre 2009 e 2018, mais de 2,3 milhões de vítimas foram indenizada como motoristas. O número representa mais de 71% do total de benefícios pagos. A maioria dos condutores (75%) ficou com algum tipo de sequela definitiva após o acidente, gerando mais de 1,7 milhões de pagamentos. Comparando 2009 com 2018, houve um aumento de 125% nos casos de invalidez permanente entre condutores.
Os pedestres são o segundo tipo de vítima que mais corre risco nos acidentes com motos e ciclomotores. Em dez anos, foram pagas mais de 493 mil indenizações a pessoas que se deslocavam a pé no momento da ocorrência. Após ser atingida por uma moto ou ciclomotor, a maioria também ficou com algum tipo de sequela definitiva: foram mais de 417 mil sinistros pagos a pedestres vítimas de invalidez permanente no período. Entre 2009 e 2018, o aumento foi de 254%.
As estatísticas por idade seguem o comportamento. Há dez anos, os jovens de 18 a 34 anos já eram a maioria atingida, com mais de 92 mil benefícios pagos. Só no ano passado, foram 130.365 indenizações pagas para esta faixa etária.

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